A ESPIRITUALIDADE QUE BROTA DO TRÍDUO PASCAL

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Padre Tião[i]

É certo dizer que o Tríduo Pascal (quinta, sexta e sábado Santos) não é uma preparação para a Páscoa, mas sua própria dinâmica acontecendo em toda sua profundidade.  Ele é o centro, o eixo central onde gravita nossa Espiritualidade cristã. Corremos grande risco de vivermos nosso dia a dia em dispersão interna e comunitária. A fé que cremos pode se esvair nas ondas da vida e no balanço das ofertas e benesses dos ídolos da morte. Assim, sermos levados a opções que estão longe do caminho oblativo e de compaixão de Jesus de Nazaré.

Eis o enfoque espiritual desses dias: refundar o nosso ser em Cristo. Para isso é importante uma melhor compreensão de seus passos. O Tríduo Pascal é desenvolvido em três cenários que se interligam e se integram: o Cenáculo, o Calvário e o túmulo. Por isso, é preciso acompanhar e vivenciar o todo sem ficar pelo caminho. O enfoque aqui é litúrgico-espiritual.

O primeiro cenário é o Cenáculo: a Eucaristia, o pão e o lava-pés. É a quinta-feira Santa! Aí Jesus celebra com seus discípulos a Páscoa Judaica, a memória da saída do Egito, e dá o horizonte de sua entrega na cruz. Assim como Jesus, nós renovamos nosso compromisso de sermos pão partilhado, de sermos promotores de uma sociedade da partilha e doação. De nos fazermos Eucaristia ao nos desgastarmos nas lutas diárias pelos que não têm a dignidade do pão. De modo particular, a narrativa de João traz o lava pés após o momento da ceia. A partilha eucarística não pode se desligar do Serviço humilde aos irmãos.

O segundo cenário é o Calvário: a cruz, o despojamento, a oblatividade e a morte.  Apesar de a espiritualidade popular nos possibilitar várias outras experiência nesse dia (vias sacras, procissões, encenações, etc.), o ponto litúrgico central da sexta-feira é a celebração das 15 horas. Ela, em sua sobriedade e despojamento, nos revela toda a compaixão de Jesus pelo povo e as conseqüências do anúncio do Reino do Deus da vida e da denúncia dos ídolos de morte. Como nos diz Albert Nolan “a compaixão e o amor obrigam o homem a fazer tudo pelo bem dos outros. Mas o homem que diz que vive para os outros, mas não está disposto a sofrer e morrer por eles é um mentiroso, e já está morto. Jesus estava totalmente vivo porque estava disposto a sofrer e morrer não por uma causa, mas pelo povo”.

Por fim, o último cenário é o túmulo: a vigília, a noite, a luz que rompe as trevas, a memória, a passagem pela água, o aleluia. A vigília é a esperançosa celebração da palavra última do Deus da vida, em que a luz de Cristo ressuscitado rompe as trevas da morte. “Eis a luz de Cristo!”. As leituras fazem memória da aliança de Deus com seu povo. Ele sempre esteve aí presente e sempre mostrou que é capaz de reerguer, romper as escravidões e sustentar seus povo no caminho para a vida. A vigília pascal tem como ponto fundamental nos levar, de novo, a nossa pia batismal e nos mergulhar novamente em nossos compromissos com as lutas de vida de nosso povo, como fez Jesus. Nela podemos refontalizar nosso projeto de vida e adesão ao Reinado de Deus.

Que, ao passarmos por esses cenários, possamos nos fazer participantes da experiência pascal. A nossa fé nos diz, apesar dos desafios da frieza ritual, que todo esse caminho celebrativo é vivo. É vida! É passagem: Páscoa! Que a nossa grande alegria seja o encontro com o Senhor Ressuscitado na manhã de domingo. Que a nossa vida, escondida nesse mistério, possa novamente experimentar o sabor e beleza da compaixão e doação de Jesus. Não deixemos que nos roubem a alegria pascal! Ela é nossa e não do mercado consumidor e seus bombons! Amém!

[i]Sebastião Corrêa Neto ou Padre Tião, como é mais conhecido, é padre e reitor do Seminário Nossa Senhora de Oliveira da Diocese de Oliveira/MG, e membro da Comissão Nacional de Assessores da Pastoral da Juventude. Especialista em Aconselhamento Pastoral e em Direção Espiritual, é autor do livro JUVENTUDES E VOCAÇÕES HOJE – Caminhos e perspectivas para uma pastoral vocacional, pela Editora Paulus.

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