Vozes que desafiam. Teresa de Ávila, a feminilidade da mística transgressora

Por: Cleusa Maria Andreatta, Susana Rocca, Wagner Fernandes de Azevedo

Teresa de Ávila aos 21 anos opta por deixar a vida em uma família nobre, contra a vontade do pai, para optar pela radicalidade de uma vida monástica. A radicalidade não é apenas na opção social da vida em comunidade no Convento Carmelita de Encarnacíon, em Ávila, na Espanha. Em verdade, Teresa optou por confrontar os desejos materiais e carnais, aflorar em seu espírito a sua feminilidade, enfrentando qualquer submissão aos padrões patriarcais e hierárquicos, libertando-se ao seu descontrole, aprendendo, por si mesma, a dominar-se e elevar-se a Deus, o Senhor, esposo ideal, que contradizia a transcendência e o alcançava. Entendia, que ao desafiar a si, enfrentava o controle de corpos e almas. Conforme relata a jornalista Nicole Sotelo, “Teresa exortou suas companheiras a acreditarem em suas próprias capacidades de reza e acesso a Deus. ‘Se alguém lhes dizer que a oração é perigosa, considerem esta pessoa o verdadeiro perigo e fujam dele'”.

A vida monástica de Teresa não foi ensimesmada em clausura, por isso, decide sair da casa de mais de 100 monjas, para espalhar pelo território espanhol, pequenos mosteiros. Giselle Gómez descreve a desobediência de Teresa, uma apóstola em movimento, e coletividade, com suas irmãs. “Ela sai do âmbito do privado desafiando o lugar assinalado às mulheres, visita as suas monjas, acompanha-as, forma-as… Seu estilo de vida provoca a crítica das autoridades da Igreja, tanto que dela se diz que era ‘mulher irrequieta e andarilha, desobediente e contumaz”. Sua vida em caminho, trazia consigo um trabalho de transformação inspirada por sua mística afim de “que suas irmãs acreditem verdadeiramente que não estão ocas por dentro, mas que são mulheres habitadas por Deus”, explica Gómez.


“Detalhe de Santa Teresa”, de François Gérard, 1827.

Como explica Faustino Teixeira, a alma para a monja, era “como um castelo feito de um só diamante, feita à imagem e semelhança do Deus misericordioso”. O teólogo destaca que para ela era essencial “romper com os limites e ultrapassar a camada espessa que impede o despojamento”. Esse rompimento vai para além do tema espiritual, “a ousadia feminina de Teresa, avançando em reflexões místicas de impressionante alcance — numa sociedade dominada pela presença de homens, de letrados masculinos, instauradores da ordenação da vida religiosa — rompe com esse esquema e instaura uma dinâmica nova, diversa, quebrando a rotina desta marca na dinâmica interpretativa da escritura”.

A mística que viveu entre os ano 1515 e 1582, deixou uma vasta produção de livros, entre os quais se destacam o Livro da Vida, As Moradas do Castelo Interior e Caminho da Perfeição, obras dedicadas ao “ensino espiritual”, de complexidade e ousadia e para o período em que encerrava a Idade Média europeia, sobretudo em um país marcado pela forte perseguição da Inquisição. No entanto, a centralidade dos escritos “é o amor”, como aponta Teixeira, “tudo é tão simples”. “Teresa oferece um caminho acessível, mas essencial: o amor a Deus e o amor ao próximo”.


(O Êxtase de Santa Teresa. Escultura de Lorenzo Bernini, em Santa Maria della Vittoria, na Via XX Settembre em Roma)

 

É o amor e o êxtase pelo Outro que faz de Teresa uma amante insaciável. A psicanalista Julia Kristeva aponta “a travessia de Teresa – ou melhor, uma decomposição – da sua identidade intelectual-físico-mental dentro e através da transferência amorosa com o Ser Completamente Outro”. Uma imersão espiritual, tatível, de encontro, de composição única, “uma metamorfose mortal e orgásmica, que remedia a melancolia da sua dor de mulher separada, abandonada e inconsolável, Teresa se apropria do Ser Outro em um contato infracognitivo, psicossomático, que a leva a uma regressão perigosa e deliciosa, acompanhada por um prazer masoquista”, expressa a psicanalista.

A ousadia da monja, a ressignificou também como mulher. Como argumenta Lúcia Pedroso Pádua, a mística pode ter três aspectos: “experiência mesma (experiência mística), o sujeito da experiência (o místico) e os escritos místicos (a mística). A feminilidade de Teresa se expressa em todos esses aspectos”. Ao viver a experiência mística de ser com Deus, expressa a sua relacionalidade, a constante procura e encontro do Outro, para a teóloga “as relações tornam-se cada vez mais fortes em amor e desejo, ao mesmo tempo, mais livres e gratuitas, mais críticas e discernidas. Esse é um traço marcante da experiência mística de Teresa como mulher”.

Como a mística Teresa, sujeito da experiência, “adquiriu apuradíssima autoconsciência de seu ser mulher. Rejeitou os estreitos papéis pré-estabelecidos e ultrapassou vários limites impostos culturalmente às mulheres”, adiciona Pádua, “Teresa foi refeita como mulher”.

O terceiro aspecto, referente à escrita e à linguagem de Teresa, demonstra a multiplicidade de alguém que se esvai e rompe os padrões, sendo aquilo que se propõe a cada momento e possibilidade. “Como mulher, sua linguagem é pluridimensional. Isenta da impessoalidade e rigores escolásticos. Teresa é muito livre em suas comparações e os símbolos são metamorfoseados segundo o objetivo pedagógico ou o sentir da autora”, explica Lúcia Pedroso Pádua.

A ousadia de Teresa pode ser compreendida na descrição de Faustino Teixeira, ao relatar que “a experiência espiritual de Teresa vem sempre pontuada por essa intensidade do desejo, pelos toques da corporalidade […] Num quadro masculino e repressivo, insere em sua pluma uma nota diversa, marcada por sensualidade única, desafiando todo pudor. O seu vocabulário vem carregado de expressões sensuais, sinalizando a centralidade do corpo como espaço da realização dos favores divinos”. Luciana Barbosa, doutora em Ciências da Religião, enfatiza “ela não recusa seu corpo nem seus prazeres corporais. Ao contrário, os assume ao Senhor. Se o corpo pode passar por tais momentos de prazer, só o faz porque Deus o permite: ‘E quer o Senhor algumas vezes, como digo, que goze o corpo, pois obedece o que quer a alma’”.

De forma sintática, de como a monja transgrediu as normas e padrões, atrevendo-se a um encontro impossível, de realização do desejo corporal de uma mulher no Ser Divino, Kristeva explica “a transcendência, para Teresa, se revela como imanente: o Senhor não está além dela, mas nela!”.

Sobre aquelas palavras: Meu Amado é meu e eu sou dele

,Já toda me entreguei e dei

,e de tal modo hei mudado
,que é meu amado para mim
.e eu sou para meu amado

,Quando o doce caçador
,me acertou e deixou rendida
,nos braços do amor
.minha alma ficou abatida

,E cobrando nova vida
,de tal jeito hei mudado
,que é meu amado para mim
.e eu sou para meu amado

,Feriu-me com uma flecha
,empeçonhada de amor
,e minha alma ficou feita
.uma com seu Criador

,já não quero outro amor
,pois a meu Deus tenho-me dado
,e meu amado é para mim
.e eu sou para meu amado

(Teresa de Ávila)

*Fonte: Instituto Humanitas

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