“Senhor, dá-me desta água”

3º domingo da Quaresma

luz_caminhada_tempo_quaresmal1° leitura: Ex 17, 3-7; Salmo 94; 2° leitura: Rm 5, 1-2.5-8; Evangelho: Jo 4, 5-42.

Aqui chegando Senhor que podermos te dar,

Um simples coração e uma vontade de cantar.

Recebe o nosso louvor, e tua paz vem nos dar.

A tua graça Senhor, melhor que a vida será.

E o seu amor em nós será manancial

De água boa jorrar para nossa sede estancar.

 

Neste domingo encontramos Jesus com a samaritana, esta mulher anônima que protagonizou com Ele uma cena marcante para nossa experiência de fé. Este episódio narrado pela comunidade joanina é um convite para repensarmos nossa prática religiosa e nossa experiência com o Transcendente.

 

É preciso primeiro dizer que com o judaísmo formado e preponderante em Jerusalém, a lógica do puro e do impuro reinava naquela região. Os judeus, guardadores da Lei de Moisés e zeladores do Templo e das sinagogas se colocavam numa situação privilegiada em relação aos povos ditos pagãos, pois eles eram povo eleito de Javé. Já os samaritanos, mesmo sendo irmãos e vizinhos, por terem sido dominados e colonizados pelos Assírios e terem misturado outras divindades em seus cultos, já não eram mais considerados puros. E o preconceito a este povo só crescia, a ponto dos judeus darem uma volta, mais longa diga-se por sinal, só para não pisar os pés na Samaria. E isto o próprio evangelho de hoje assume, mesmo que quase de forma poética… “de fato eles não se dão bem”.

 

Jesus ao sair de Jerusalém (Jo 2,13), passou pela Judeia (Jo3,22) e em seguida foi a Sicar, uma cidade da Samaria, onde havia um poço dado ao povo por Jacó. O versículo 4 do capítulo 4 (o verso imediatamente anterior, à nossa leitura de hoje), diz que era preciso passar pela Samaria, uma vez que Jesus estava indo para Galileia. Ora, isso não é verdade!!! Tanto é que a prática dos judeus era dar a volta mas não cruzar pela Samaria. Jesus quis passar ali. Ele quis fazer o exercício da aproximação!

 

Neste momento, Jesus é estrangeiro, o que para a cultura da época já era um tabu… Mas Ele interage e interage com uma mulher, a beira de um poço e pede água. Sim, é Jesus quem inicia a conversa e começa pedindo ajuda. Não chega com ar de superioridade, nem de desprezo. Coloca-se no lugar de quem precisa. Mas aquela atitude daquele homem judeu surpreende nossa mulher samaritana. Num contexto que o Santo dos Santos era guardado no Tempo, e que das mulheres era afastado, pois a sua frente e mais próximo ficam os homens, já temos aí rupturas demais; o Messias, o Filho de Deus vai aos ditos impuros, cruza as fronteiras do preconceito, rompe barreiras e se dá a relacionar com uma mulher.

 

Mas as rupturas não param aí, o poço em questão foi dado ao povo pelo pai Jacó. Muito embora mesmo com sua Tradição e significado para a comunidade, a água do poço, só aliviaria a sede momentaneamente. Jesus se apresenta como fonte de água viva, dá novo sabor e significado, não abole o anterior mas recria, aprofunda e resignifica.

 

A samaritana reconhece em Jesus esta fonte de água viva e lhe pede: Senhor, dá-me de beber. É lógico que a esta altura, Jesus já havia tomado a água dada pela samaritana, afinal estavam sob o sol de meio dia, e Jesus viajava caminhando, estava sedento… Mas agora é Ele quem oferta… Mesmo com culturas diferente é possível haver trocas, há similaridades, há possibilidades de conexão.

 

No diálogo sobre os maridos da mulher, possivelmente Jesus está fazendo alusão às cinco divindades incorporadas pelos samaritanos (cf. 1Rs 17,24ss) Contudo, se os samaritanos tinham templo no monte Garizim, os judeus o tinham em Jerusalém. E Jesus desconstrói a centralidade do templo dizendo que eles não adorariam ao Pai nem no primeiro nem no segundo templo, mas sim, adorariam em espírito e verdade, pois Deus é espírito.

 

Quando os discípulos de Jesus chegam, como fruto de uma sociedade machista e patriarcal, admiram-se de ver Jesus conversando com uma mulher. O fato, porém, é que tal mulher ao reconhecer em Jesus, a fonte de vida, um profeta e o Messias, saiu à cidade anunciando Jesus e muitos vieram ter contato com Ele e estes lhes pediram para que ficasse mais, e Jesus assim o fez, por dois dias.

 

Sim, Jesus rompe a barreira do gênero e de certo modo da religião. Será que não estamos, e nossas instituições, bem como nossas Igrejas, cerceando o sagrado? Fazendo o caminho contrário ao de Jesus na Samaria… colocando-o no Santo nos Santos, nos altares e longe do povo? Distanciando-o de determinado grupos? Satanizando determinadas experiências e discriminando pessoas? Fico pensando nos poços que temos hoje, nas samaritanas, em quais são as águas que geram vida e matam a sede… LGBTs, pessoas e religiões de matriz africanas, encarcerados/as. Fico me lembrando das Galileias Juvenis que refletíamos e rezávamos na Ampliada Nacional de Crato. Retomo que Jesus ia para a Galileia, mas antes ele quis passar na Samaria e fazer a experiência com o inusitado. Para nós hoje chegarmos lá, não teríamos que também passarmos pela Samaria? Nos permitemos… procuremos poços, cavemos para achar água, as vezes teremos que retirá-la das rochas, lembremos da experiência do Êxodo, narrada na primeira leitura. Quais desconstruções teremos que fazer? Quais preconceitos quebrar? E não adianta ir para os templos… a vida está pulsando lá fora, por mais que tentem dizer que lá é profano, ainda sim é possível encontrar com Deus no meio do povo, com este Jesus fonte de água viva.

 

Eu te peço desta água que Tu tens

É agua viva, meu Senhor

Tenho sede, tenho fome de amor

E acredito nesta fonte de onde vens

 

 

Por Pedro Caixeta

CEBI GO

Coordenador Nacional da PJ (2006 – 2009)

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