SEGUIR JESUS É TER DISPOSIÇÃO DE DIALOGAR

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Estamos na solenidade de Pentecostes, uma das grandes festas da igreja. Somos convidados a um mergulho no mistério celebrado neste domingo. Neste dia, celebramos a experiência que os discípulos de Jesus fizeram ao sentirem-se impelidos, por algo maior que eles mesmos, e que passaram a chamar de Espírito Santo. A liturgia deste domingo, apresenta-nos a compreensão do dom do Espírito Santo pelas comunidades lucanas (primeira leitura), por comunidades paulinas (segunda leitura) e por comunidades joaninas (Evangelho). Convém ressaltar também que temos duas narrativas da “vinda do Espirito Santo” (At 2,1-11; Jo 20,19-23).

A primeira leitura é retirada dos Atos dos Apóstolos (At 2,1-11). Para contempla-la precisamos primeiramente retomar o significado desta festa para os judeus do século I. Era uma festa agrária, da colheita. Para sociedades antigas era algo vital. Em Lv 23, 15-27 apresenta recomendações de como a festa deveria ser celebrada. Era uma das grandes festas e um dos grandes deslocamentos para Jerusalém. Havia grande festividade em Jerusalém. Nesta festividade entregava-se a Deus parte dos dons que Ele mesmo tinha oferecido.

Também para a compreensão do texto é preciso ter em mente o esquema teológico da obra lucana Lc (da Galiléia para Jesuralém; Lc 9, 51; 24, 47.52) e At (de Jerusalém para Roma; At 1, 8.12; 2,1-11; 28,15-16) No coração  do texto está a compreensão da comunidade lucana, que a atuação dos seguidores de Jesus é muito mais do que um ato de impulso próprio e sim fruto da presença do Espírito (At 2,2). A comunidade em suas diferenças é obra do Espirito (At 2,5-11). Em tempos de intolerância, o texto de hoje lembra-nos que o Espírito ensina-nos a falar de um jeito que os povos diferentes possam entender. Como está nossa atuação pastoral? Sabemos falar a “língua” dos nossos interlocutores? Celebrar pentecostes é celebrar a festa da comunicação, da linguagem.  A narrativa mostra-nos pessoas vindas de lugares diferentes,  com diversas trajetórias e culturas. Em quais línguas precisamos falar hoje? Os que escutam-nos, reconhecem proximidade ou fazemos discursos que só nós mesmo conseguimos entender? A festa de hoje é a festa das diferenças e da unidade. Unidade nas diferenças, diferenças na unidade. O que “linka” tudo isso: O Espírito e não o poder!

Se na origem da festa o povo oferece à Deus seus dons. As comunidades lucanas apresentam-nos a compreensão de que é o próprio Deus que se oferece como um dom. O Deus que parecia receber um presente é quem presenteia-nos: com sua presença que encoraja, une e revigora.

Na segunda leitura encontra-se num trecho da primeira carta de Paulo à comunidade de Corinto que busca apresentar pistas para a vivência da unidade e da diversidade (1Cor 11-13). Depois de abordar a diversidade, Paulo lembrará a comunidade o que os une: o Espírito. Em nossas relações dentro da comunidade está claro o que nos une?

No último versículo Paulo apresenta um elemento fundamental de sua compreensão das relações sociais a partir do seguimento de Jesus: o fim das divisões. As cidades nas quais estavam nascendo as comunidades, tinham as classes e os lugares sociais bem divididos. A fé cristã vem apresentando outra perspectiva. O fim de tudo aquilo que pode trazer hierarquizações classes, raças, tudo o que pode dividi-nos é menor do que aquilo que nos une. Formamos um único corpo. Uma sociedade onde as diferenças não configuram-se como muros é obra do Espírito. Cristãos mostram que seguem seu mestre ao saber conviver com as diferenças. Eis uma importante luz para viver o seguimento de Jesus neste momento da história

Chegamos ao Evangelho (Jo 20,19-23). A narrativa apresenta como a comunidade joanina compreendia a presença do Espírito. No primeiro dia da semana (Jo 20,19), domingo, dia de celebrar com a comunidade. Mesmo com os discípulos marcados pelo medo, aparece à eles o ressuscitado (Jo 20, 19). Também aqui é o próprio Deus que trás o dom: a sua paz (Jo 20, 19). Como  acontece com outras expressões a tradução não permite-nos alcançar a profundidade da experiência do shallon dos judeus, que não é calmaria, mas é desejar que tenha-se tudo que é necessário para viver. Jesus deseja e oferece a comunidade nascente vida. Jesus sopra sobre seus discípulos (Jo 20, 22). Quem construiu a narrativa, como em outros momentos de sua obra, faz uma alusão ao Gênesis (Gn 1,7). O Espírito é o sopro criador de Cristo. Dele provém a vida. A terra frágil que eram os discípulos da primeira hora, ganham nova vida, como o animo que veio do próprio Deus. Por isso, a Igreja nascente é chamada a ser uma fonte para a humanidade. Lugar onde Deus recria-nos. Também nós na segunda década do século XXI somos chamados a sermos força vivificadora.

Junto com o dom do Espírito e sua paz, Jesus dá à Igreja o dom de perdoar. A Igreja recebe a responsabilidade de construir pontes, de curar, de fazer crescer. Diferente do que alguns que parecem gostar de afirmar que os outros vão para o inferno, a festa de hoje é um convite a sermos testemunhas do perdão generoso e abundante. Não à comunidade sem perdão.

Hoje é dia de olhar para a nossa trajetória e reconhecer que há algo maior do que nós, mas também de suplicar com o salmista que o “Espírito renove a face da terra” (Sl 103). Que derrube os muros do ódio e faça de nós discípulos de Jesus de Nazaré,  com a habilidade de testemunhar a Boa Notícia nas realidades em que estamos inseridos

 

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