CONTEMPLANDO A FIDELIDADE DO AMOR QUE NOS CONVIDA A AMAR

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Por Ir. Joilson Toledo

A quaresma vai terminando e se aproxima a semana santa. Chegamos ao tão conhecido Domingo de Ramos. Um dia original já de cara, porque a liturgia nos propõe dois evangelhos. Numa antiga tradição este era do Domingo da Paixão, por isso o evangelho “principal” é a narrativa da paixão de Cristo (Mc 15,1-39).

O texto do Evangelho que proclamamos fora da Igreja (Mc 11,1-10) nos apresenta a entrada de Jesus em Jerusalém. A maneira como a narrativa é construída conecta Jesus e nós, seus discípulos, com a esperança messiânica de Israel. Ao apresenta-Lo entrando na cidade montado num “jumentinho”, a comunidade de Marcos nos mostra a maneira como viam a relação de Jesus com as esperanças do povo do antigo Israel (Zc 9,9). É Jesus, o rei esperado, o que “vem em nome do Senhor” (Mc 11,9-10). A chegada do messias inauguraria um novo tempo. Somos convidados a esperar, celebrar e construir a chegada de um tempo de paz! Somos pessoas de esperança.

Aclamado, entra na cidade fazendo brotar do coração do povo suas esperanças. Os cristãos da primeira hora reconheceram na entrega da vida de Jesus a realização das promessas feitas no Antigo testamento. Neste domingo, também é tempo de olhar para a própria trajetória, para o caminho que a sociedade faz e se perguntar: quais as grandes esperanças que trazemos no coração? É preciso tomar cuidado com um caminho de interpretação dos textos bíblicos que afirmará: “O mesmo povo que aclamou Jesus pediu que ele fosse crucificado”. Mas isso retomaremos mais a diante.

O trecho do Livro do Profeta Isaias que lemos hoje (Is 50,4-7) está numa parte do livro que possivelmente foi escrita no contexto da saída do Exílio. Textos que evocam a imagem de um Deus cheio de ternura, mas que também nos apresentam a figura do “Servo de Javé” (Is 42,1-9; 49,1-13; 50,4-11; 52,13-53,12). Duas convicções poderiam ser ressaltadas no texto: “Em Jesus, Deus mesmo nos ensina a sermos discípulos”; “ser discípulos nos coloca em situação de conflito”. Anunciar uma Boa notícia ao abatido (Is 50,4) e acolher o que o Mestre tem a nos dizer (Is 50,5). Essas atitudes podem nos colocar em conflito com outros projetos. O caminho da persistência e da não violência é o caminho indicado  (Is 50,6-7).

Na Carta de Paulo aos Filipenses temos um dos pontos fundantes da compreensão que a Igreja tem da pessoa de Jesus. O Cristo sendo Deus mergulhou em nossa humanidade de tal forma que ele mesmo é o caminho para viver o que Deus pede de cada um de nós (Fl 2,7-8). O assumir a contingencia humana para Jesus não significa humilhação, é um ato de amor.

Ao mesmo tempo em que celebramos seu ato de entrega, celebramos, como já afirmara a primeira leitura, seu Senhorio em relação a história e a humanidade (Fl 2,9-11). O que se entrega é o Senhor! Vemos assim que há lógica do Deus Trindade (Is 55,8). Aprendemos com Jesus a ser gente e a servir com amor. O mistério que celebramos na Páscoa é o do amor que se vive até as últimas consequências. Os cristãos da primeira hora reconheceram que a entrega de Jesus venceu a morte, que Ele tem um “nome acima de todo nome” (Fl 2,9). Nós, discípulos de Jesus, somos convidados a fazer o mesmo caminho. Por reconhecer o “nome”, a pessoa, o projeto de Deus assumir com coragem e paixão nossa humanidade, mergulhar nas causas que defendem a vida.

Por fim, chegamos à extensa narrativa da Paixão, segundo a Comunidade de Marcos (Mc 15,1-39). Este, com a brevidade e o estilo direto que lhe é próprio, apresenta a interpretação que este conjunto de cristãos acolheu o mistério cristão. Os poderosos de seu tempo tramaram a morte de Jesus. As acusações eram políticas – se dizer rei dos judeus (Mc 14,2.9.26) e religiosa – se dizer filho de Deus (Mc 14,61). Devido ao termo “multidão”, usado pelo evangelista nas homilias, costumamos ouvir que “a multidão aclamou Jesus é a mesmo que grita: crucifica-o”. Pelas dimensões das ruas de Jerusalém isso é pouco provável. O que a maneira como a narrativa apresenta mostra uma conspiração dos que detinham o poder (Mc 14, 55; 15,1.10-11).

A entrega da vida de Jesus é o que celebramos de forma especial hoje. Seu jeito de ser messias é mergulhar no drama dos injustiçados da história. Insultado, caluniado, espancado, vítima da trama dos que detinham e queriam permanecer no poder, Jesus se irmana a tantos que viveram o mesmo percurso (Mc 15,15-19). Em seu caminho para o calvário e morte de Cruz, Ele abraça todos, aceitando a injuria e a morte por amor a vida.

Jesus é condenado à morte. A cruz era um instrumento de tortura utilizado pelos romanos para pessoas das camadas mais baixas da sociedade. Ela é para dizer quem faz este caminho terá esse fim! É humilhação, e para um judeu é maldição (Gl 3,13). Um cidadão romano nunca poderia ser crucificado. Jesus tratado como uma ameaça ao império tem o destino dos criminosos. Ele é tratado como bandido, por isso, a nós, discípulos de Jesus, a expressão “bandido bom é bandido morto” é no mínimo precipitada.

Como bom judeu, vemos Jesus rezando um trecho do salmo 22 (Mc 15,34). A pergunta, por onde está Deus diante do sofrimento do inocente, perpassa as várias culturas. Cabe aos que tiver a oportunidade olhar o salmo 22 como um todo.

Durante a leitura do Evangelho há um belo gesto litúrgico (Mc 15,37): Todos se ajoelharem. Com profunda reverencia os que participam da celebração contemplam a entrega de Deus. O mestre se entrega por amor. Contemplamos não a ternura e a morte, mas o amor e a fidelidade. Amor que não recua, que não negocia o “inegociável”, que não se cansa de amar, amor que nos convida a amar.

Uma imagem curiosa e ilustrativa: a cortina do santuário se rompe (Mc 15,38). Essa cortina marcava a divisão de espaço, delimitava até onde se poderia ir, separava o mais santo. Ao nos apresentar essa imagem, a comunidade que escreveu o evangelho de Marcos nos testemunha que, com a entrega da vida de Jesus, Deus abraça definitivamente a humanidade. Como rezamos numa oração eucarística celebramos o “Deus que sempre quiseste estar tão perto de nós. Vivendo conosco no cristo. Falando conosco por ele”. Que neste dia todos se sintam alcançados pelo amor, que neste dia ninguém se sinta “apartado” do mistério. Contemplemos o amor que dá sentido às nossas vidas. Ao celebrar esse amor, busquemos refazer, no hoje da história, as escolhas que o Mestre fez.

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