Seguimento de Jesus: um caminho de aprender a amar

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1a Leitura: Lv 19,1-2.17-18 | Salmo 102 | 2a Leitura: 1Cor 3,16-23 | Evangelho: Mt 5,38-48
Por Ir. Joilson Toledo, FMS

No geral, quando falamos da fé cristã e dos ensinamentos de Jesus, nos remetemos ao amor. E o caminho é este mesmo. No entanto, precisamos ir além da poesia ou da palavra morta e alcançar que jeito de amar é este que o evangelho nos convida a viver. Este é o convite deste domingo. Ainda estamos lendo textos do sermão da montanha (Mt 5-7). Depois das bem-aventuranças (Mt 5,1-12), e do chamado ao testemunho (Mt 5,13-16), Jesus vai retomando as orientações presentes na lei de Moisés e nos costumes de sua época, relendo-as; na verdade, radicalizando-as (Mt 5,17-7,29). Vemos, repetidas vezes, a expressão: “mas, eu vos digo” ou “eu, porém, vos digo” (Mt 5,22.28.32.34.39.44.). Já aqui temos uma importante lição da comunidade mateana: aprender a reler os costumes, e relê-los a partir da defesa da vida.

No texto proclamado na liturgia deste domingo, temos duas sentenças que nos remetem às relações com as pessoas. Ele nos convida a abandonar as pretensões de vingança. Nestes tempos onde as diferenças e divergências são tratadas com tanta animosidade, os textos bíblicos lidos em nossas comunidades nos convidam a arrancar, até a raiz, desta pretensão.

A primeira leitura (Lv 19,1-2.17-18) e a última frase do evangelho (Mt 5,48) nos oferecem uma chave de leitura muito importante: a santidade; esta palavra, tão desvirtuada em nosso tempo. Mas, o que quer dizer ser santo, afinal? A origem da expressão em hebraico está ligada a cortar, separar. Eram as coisas reservadas para Deus; que lhe eram entregues; a ele consagradas. Das coisas reservadas a Deus, não nos aproximamos de qualquer jeito… Assim, a expressão “santidade” nos remete a Deus mesmo. Deus é santo, nós somos chamados a ser também… a origem da expressão e o contexto em que ela está inserida nos iluminam a pensar que a santidade nos convida a estabelecer novas relações. Contatos que valorizem a vida, gerem vida, defendam a vida. Porque o nosso Deus, o Deus da vida, é santo.

Para esta nova relação, a comunidade de Mateus nos apresenta duas sentenças: Olho por olho, dente por dente (Lv 24,20; Dt 19,2) e Ama o teu próximo e odeia teu inimigo (Lv 19,18). A primeira delas é a Lei de Talião (Ex 21,24; Lv 24,20; Dt 19, 21). No Antigo Testamento, esta lei tinha a função de evitar um círculo de violência em cadeia, e evitar também que uma família ou pessoa mais forte e poderosa destruísse quem era mais frágil. Mesmo parecendo estranha, em sua origem, a função desta lei era defender a vida, os fracos. A comunidade de Mateus quer ir além da equiparação de forças. Ela parece sonhar com derrotar a violência em sua raiz. Aqui, o evangelho lança uma luz fundamental para o tempo em que estamos vivendo. A grande resposta ao rancor, ao ódio, à intolerância, é o amor. Ao propor não revidar, a comunidade mateana mostra sua utopia – a utopia cristã – de um mundo onde todos são vistos como irmãos. A resposta deve ser sempre o amor. Talvez você esteja pensando que eu estou sendo poético demais, e que seja preciso não ter sangue na veia para não revidar. No entanto, o evangelho de hoje nos convida a uma pergunta: que atitudes tomar para quebrar círculos viciosos de ódio, rancor e vingança?

Na segunda sentença (Mt 5,43), o pensamento da comunidade dá um passo à frente. É preciso amar quem quer ser nosso inimigo, quem nos faz mal. Isso não quer dizer sucumbir ao mal. O discipulado de Jesus nos convida a pautar nossas ações pelo Evangelho, e não por uma “escala meritocrática” ou de troca de valores. O cristão simplesmente é. Isso, para além das posturas dos outros, e também porque Deus é misericordioso. Aqui, a moral convencional é profundamente criticada. A resposta de Deus é sempre o amor; com todos age com amor; a todos dispensa seu cuidado. Quem quer ser discípulo de Jesus deve seguir o mesmo caminho. No texto, aparecem como exemplo dois grupos que não eram muitos bem vistos: os cobradores de impostos e/ou não judeus.

Outro apelo presente nos textos proclamados hoje é uma visão de universalidade. Não é um círculo pequeno de privilegiados que devem ser os únicos destinatários do melhor das minhas energias. Deus faz o bem a todos; cada um de nós é chamado a fazer o mesmo. O fato de sermos cristãos deveria nos colocar em profunda solidariedade com toda a humanidade.

A moral cristã, a atitude cristã, é sempre um passo além no amor. Somos convidados a radicalizar no amor, a ser “intransigentes” no amor. É a atitude de amar aqueles que Deus coloca em nosso caminho, e não a vivência dos preceitos religiosos que mostra a nossa fé. Reler a palavra. Aprender com ela a dar uma resposta amorosa e ousada, num tempo por vezes marcado pela intolerância. Todo jeito de ler a bíblia que não ajuda a construir laços e a descobrir caminhos para uma sociedade inclusiva, fraterna e humanizadora, nos coloca longe do seguimento de Jesus. Que a Palavra oriente nossas atitudes e nos ensine a ser discípulos.

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