Ressurreição: uma experiência que se acolhe e que é gerada na comunidade

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Chegamos a oitava da páscoa. Um domingo depois do domingo da ressurreição, o oitavo dia. Nossa liturgia nos convida  num clima de profunda alegria a acolher “o dia que o Senhor fez para nós” (Sl 118, 24). O coração da experiência pascal dos judeus e dos cristãos é de vitória da vida sobre a morte. Uma experiência de passagem, de transição e de superação, em que tanto judeus, como cristãos reconhecem a mão de Deus que liberta seu povo (sl 118, 15-16; Ex 15, 6; Dt 26, 4-10; Lc 24, 13-35). Nossa tradição nos convida a celebrar os 50 dias da páscoa como um grande domingo, mas a primeira semana tem um tom mais festivo.

Neste período pascal as primeiras leituras são dos Atos dos Apóstolos. Elas nos mostram os frutos da experiência de ressurreição que os discípulos da primeira hora fizeram. Testemunham o ideal dos primeiros cristãos, um horizonte para onde caminhar. Temos neste domingo, no trecho lido, o perfil ou ideal da comunidade dos discípulos: Palavra de Deus, comunhão, fraternidade e solidariedade (At 2,42-47). A comunidade nos mostra uma maneira de organização onde não é o capital e sim a pessoa que está no centro (At 2, 44-45). A segunda leitura nos anima a viver a partir do discipulado uma experiência onde fé, escolhas e conhecimento estão ligados e nos apontam um caminho de liberdade (1Pd 1,3-9). Quem ressuscitou com Cristo é um homem/ uma mulher livre. Para discípulos da segunda geração lembra que sem ter visto o Senhor, como os primeiros discípulos o seguem. Acreditam e acolhem o testemunho da comunidade (1Pd 1,9). Vemos Jesus não no seu corpo físico, o encontramos na comunidade, no cotidiano, na vida.

Um dos pontos comuns das narrativas dos evangelhos é afirmar o desafio da comunidade em acreditar na ressureição. Os relatos da ressurreição falam de medo, espanto, dificuldade de acreditar. (Mt 28,16-17; Mc 16,9-14; Lc 24,9-11.15-16.36-43; Jo 20,9-10). A ressureição nos desafia à outra lógica: acreditar que a vida vence a morte. A fé na ressurreição é uma convocação a esperançar o olhar.

O destaque que a comunidade joanina dá “as portas fechadas por medo dos judeus” (Jo 20,19) sinaliza a situação de apreensão que a comunidade vivia. O testemunho do ressuscitado deve ser dado num mundo hostil. Nós que vivemos, por vezes, cenários de intolerância somos também desafiados a acolher aquele que nos surpreende, nos encoraja, nos aponta caminhos, mesmo quando insistimos em permanecer com “as portas fechadas”.  Mesmo assim Ele aparece; deseja a cada um de nós o dom da paz e nos mostra as mãos e o lado (Jo 20, 20).

Jesus oferece o dom da paz, o shalom, dentro da tradição judaica desejar a paz é desejar tudo de bom. É desejar que você tenha na vida as condições para ter paz. Não é uma sensação. É um conceito amplo…  nos remete a plenitude, acabamento, totalidade, perfeição. É mais do que tranquilidade.  A comunidade joanina entende que Jesus lhe deseja a paz, tudo o que precisa para caminhar. A nós também, Ele deseja hoje tudo o que precisamos para chegarmos a ser o que Ele nos chama a ser.

O ressuscitado taz as marcas da experiência histórica. Seu corpo glorificado não apaga a cruz, mas a ilumina e dá sentido. Olhar “as mãos e o lado” do Senhor hoje é dar sentido a dores, embates e desafios que vivemos. Quais desafios e dores você precisa iluminar? A comunidade joanina nos mostra que reconhecer estas marcas já transfiguradas pela experiência da ressurreição nos traz alegria.

Neste trecho temos uma expressão comum no Evangelho de João: “como”. A relação do Pai com Jesus é uma referência para pensar a relação do Cristo conosco (Jo 17,18;), mas também nos aponta o caminho do seguimento. Somos chamados a trazer em nossa prática o jeito de Jesus (Jo 13, 15.34; 15, 12; 17,22). “Como Pai me enviou, eu também envio vocês” (Jo 20,21) Jesus é a imagem do Pai. Ele é que nos revela (Jo 1,18). Nestes tempos que somos desafiados pelo Papa Francisco a uma “Igreja em saída” o que significa para você ser enviado “como” Jesus foi? Pensando em lugares, escolhas, gestos, destinatários… A ressurreição é sempre uma experiência missionaria e vocacional. O encontro com o ressuscitado é um convite a retomar a coragem de ser quem somos chamados a ser.

Contudo, o desejo da paz e o envio vem acompanhados por um sopro (Jo 20,22). Este gesto nos remete ao gênesis (Gn 2,7). Em hebraico sopro e espírito são a mesma palavra. A paz de Cristo é para os cristãos como o sopro de Deus na criação. Esta paz gera uma nova realidade: pessoal, social, eclesial, política. Na paz de Cristo, através do testemunho, da prática, das escolhas dos discípulos de Jesus, Deus recria o mundo. No ressuscitado fomos recriados e somos recriadores. Trazemos dentro de nós a experiência vivificante da ressurreição que deve transbordar em vida para os que nos cercam. A comunidade recebe o Espírito para ser um sinal de vida. A presença do Espírito na comunidade é sinal de reconciliação e de superação do mal e do pecado. Vemos nesta cena, então, uma  sequência de gestos e símbolos que mostram que a experiência da ressurreição dá vida e coragem a comunidade para ela caminhar. E com você, o início do tempo pascal tem  vivificado sua esperança?

A comunidade fez esta experiência, mas alguém não estava: Tomé (Jo 20,24). Podemos dividir o trecho do Evangelho de hoje em dois momentos. Primeiro uma cena sem Tomé (Jo 20,19-24). Seu questionamento a experiência que a comunidade fez (Jo 20,25)  e um outro em que ele está presente (Jo 20,26-31). Os dois momentos em que o Senhor aparece são domingos. É possível que a comunidade joanina enfrentava o questionamento daqueles que não foram discípulos de Jesus desde a Galileia. Este desafio e desconforto têm atravessado gerações de cristãos. Todos somos desafiados na comunidade, no interior de sua dinâmica que aprendemos a reconhecer o Senhor. A comunidade é para cada discípulo de Jesus uma escola que ensina a “ver o Senhor”, onde ele está. O trecho quer nos provocar a levar a sério o testemunho da comunidade. Você leva?

Na figura de Tomé encontramos o desafio da relação entre ver e crer. Na expressão que ele usa “meu Senhor e meu Deus” (Jo 20, 28) temos uma profissão de fé. Experimentar o ressuscitado no interior da comunidade, nos faz tomar consciência de quem ele é em nossas vidas e para a humanidade. Se a profissão de fé de Natanael (Jo 1,49) abre a narrativa da comunidade joanina, a afirmação de Tomé conclui. Toda a obra da comunidade joanina é uma afirmação de porque acreditamos que Ele é.

Vimos o Senhor é a fala da comunidade. Ele é o “vivente”, presente na comunidade. Onde hoje vemos o Senhor? Podemos, eu e você, hoje repetir a frase com a convicção que o Evangelho nos testemunhou: “vimos o Senhor”. Nossa fé, nossa militância, nossas buscas são fundamentadas nestas experiências. Mais do que o toque de Tomé em  Jesus, o texto quer salientar o lugar de todos nós que cremos a partir do testemunho da comunidade. Não só o tocar, é preciso ouvir. A ressurreição é uma experiência vivida em comunidade.

Crer é um ato que comporta riscos. Deve extrapolar o que se vê. É mais do que um exercício de matemática. A fé na ressurreição nos faz em engajar na construção do “ainda não visto”, mas “experimentado”. Crer que o Senhor ressuscitou nos leva a nos comprometer na construção do “outro mundo possível” no qual também cremos sem ter visto. Seguimos este caminho, porque como escreveu o Dom Oscar Romero à Dom Pedro Casaldáliga “acreditamos na vitória da ressurreição.

Desta forma celebramos neste domingo a ressureição enquanto experiência feita na comunidade e como geradora de vida em comunidade. Ressuscitados com Cristo e acolhendo o testemunho da comunidade somos convidados a (re) construir relações humanizadas e humanizadoras. “Crendo sem ter visto” construímos pontes e laços, convivências e nexos que tornam visíveis no hoje da história a vida e a paz que brota da entrega, da pessoa e do projeto de Jesus de Nazaré.

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