A PAZ (INQUIETA) ESTEJA COM VOCÊS

2º domingo da Páscoa.

1° leitura: At 4,32-35

Salmo 118 (117)

2° leitura: 1Jo 5,1-6

Evangelho: Jo 20, 19-31

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Este é o dia que o Senhor fez para nós, alegremo-nos e nele exultemos! (Sl 118, 24) É Páscoa! A vida vence a morte. O projeto de Jesus é maior que sua execução. O próprio Jesus está vivo e nos anima a caminhar. A vida segue! É tempo de cativar a esperança, de se reabastecer, de beber da fonte, de se re-encantar, de se inspirar no nosso sonho de amor Brasil-mundo-cosmos[i].

 

Como cristãos/as que somos, seguidores/as do Ressuscitado, uma coisa não nos pode faltar: a esperança! Sim, é na certeza da Ressurreição, de que nem mesmo a morte nos impede, é que temos que seguir… Dom Pedro Casaldáliga já nos alertava: “Pode faltar tudo, menos a esperança.”

 

E fazendo a experiência pascoal, visitamos as comunidades Joaninas. Iniciemos em 1 Jo 5, 3a: “Porque este é o amor a Deus:  guardar seus mandamentos.” Este trecho ganha especial sentido quando sabemos que esta carta de João é de certa maneira uma continuidade do processo de acompanhamento e educação na fé feito por João em “suas” comunidades. Sendo escrita a posteriori do IV evangelho, este povo guardava na lembrança ainda a Boa Nova na qual Jesus dizia que daria um novo mandamento: amar uns aos outros, como Ele mesmo nos tinha amado (conf. Jo 13,34). E como quem ama cuida, no Evangelho de João também encontramos Jesus dizer que tinha vindo para que todos/as tenham vida e vida em abundância (conf Jo 10, 10b). Portanto, quando João orienta suas comunidades no final do primeiro século cristão, a guardar os mandamentos, não o faz pensando unicamente numa lista de preceitos a serem cumpridos, mas diz a partir da vivência com Jesus de Nazaré e seu jeito de ser e estar no mundo, trazendo novo sentido a fé e a vida.

 

Sentido este que as primeiras comunidades cristãs entendeu e viveu de maneira muito bonita. Sim, viveu… não é historinha para boi dormir. É logico que houve percalços no caminho, houve quem tentou burlar e o sistema? Este deu seu jeito de cooptar… Mas voltemos a memória que a liturgia de hoje nos convida a re-cor-dar[ii] na primeira leitura.

 

Os cristãos tinham tudo em comum[iii]. “Todos/as eram um só coração, tudo era posto em comum!!!” A comunidade foi enfática ao lembrar (At 4, 34) que entre eles/as não havia nenhum necessitado/a, pois eles vendiam seus bens e partilhavam na comunidade. E um detalhe que por vezes passa despercebido é que os apóstolos “distribuía a cada um segundo a própria necessidade (v. 35)”. Ou seja, quem tem mais filhos/as, recebia mais. Quem tinha um doente em casa, tinha mais necessidade, recebia mais. Ora… dividir igualmente pode não significar justiça. Que Boa Notícia é esta: comum-união, comum-unidade, sem necessitados/as!?!?!? Queria pedir licença e falar diretamente com você. Imagine quão bom seria… e pode ser!!! Você acha que não? Pode sim!!! Somos o povo da esperança não é mesmo?

 

Só estes 4 versículos dos Atos dos Apóstolos já nos provocam bastante nesta liturgia dominical. É preciso pensar sobre esta experiência feita pelas primeiras comunidades e nos perguntar por que hoje não a fazemos mais. Aproximamo-nos ou nos afastamos do projeto de Jesus?

 

Ainda na 1ª carta de João (4,5) encontramos uma pergunta que nos desconcerta: “Quem é que pode vencer o mundo, a não ser quem acredita que Jesus é o Filho de Deus?” Deste modo, João nos chama à responsabilidade de vencer o mundo.  De mudar aquilo que nos afasta do projeto de Reino e de construirmos a Civilização do Amor. Somos nós que cremos em Jesus Cristo, que seguimos sua pessoa e proposta, que não perdemos a esperança… Lembremos de Dom Helder Câmara em sua Invocação a Mariama[iv]: “Claro que dirão, Mariama, que é política, que é subversão, que é comunismo. É Evangelho de Cristo, Mariama!” Salmodiemos com o Povo de Deus: a mão do Senhor fez maravilhas! Eterna é sua misericórdia. Eterno é seu amor. Vale para hoje! Vale para sempre! Vale para agora!

 

No Evangelho, encontramos Jesus ressuscitado dizendo repetidamente “A paz esteja com vocês.” Os discípulos estavam com medo. Estavam trancafiados. Quantas vezes o nosso medo nos impede de agirmos? Quantas vezes o medo nos rouba aquilo de bonito e profundo que já vivemos e que nos jogaria para frente ou então para águas mais profundas? Quando Jesus chega, ele deseja a paz e em seguida nos envia assim como o Pai O tinha enviado.

 

Ahhh! A paz de Jesus não é paz do nada fazer, a paz da calmaria. Não, a paz de Jesus é a paz inquieta[v] que coloca a gente no olho do furacão, confiados/as na ação providente de Deus que caminha com os/as seus/as. A paz de quem se coloca a disposição de ser instrumento da vontade de Deus, sendo dócil ao Santo Espirito, que a comunidade lembrou no texto bíblico com a imagem do sopro divino: Recebam o Espirito Santo!

 

Rezemos com Tomé: “Meu Senhor e meu Deus!” Quantas vezes é difícil acreditar que seremos nós que teremos que sair a proclamar a Boa Notícia do Reino. Que por mais que tentaram matar… que não mataram a proposta, a causa, o Amor. Não duvidemos, não digamos que não tem mais jeito, não paremos de acreditar… por mais golpeados/as que estivermos, amanhã vai ser um outro dia[vi].

 

Novamente voltemos ao verso 5, do capítulo 5 do Primeiro João: quem é que pode vencer… a não ser quem acredita?  A Legião Urbana já nos embalava dizendo que quem acredita sempre alcança[vii]. No Salmo 118, encontramos no versículo 22 que a pedra que os construtores rejeitaram, tornou-se a pedra angular. Não tenhamos medo. Arisquemos a viver por amor[viii]. Amemo-nos, amemos a todos/as… inclusive a quem não nos ama… Saiamos a proclamar o Reino de Deus, a anunciar que Jesus está vivo e sua proposta segue conosco. Que somos herdeiros/as Dele. Que não nos calarão, que não há cultura de ódio nem de poder-ostentação que nos faça desistir. Que nossa paz é inquieta e que nosso prumo que é Jesus.

 

Por Pedro Caixeta

CEBI GO

Coordenador Nacional da PJ (2006 – 2009)

 

[i] Sugestão de música: Coração civil, Milton Nascimento.

[ii] Recordar é passar de volta no coração.

[iii] Sugestão de música: Os cristão tinham tudo em comum.

[iv] Invocação a Mariama. Dom Helder Câmara, da Missa dos Quilombos.

[v] Sugestão de poesia/oração: A paz inquieta. Dom Pedro Casaldáliga.

[vi] Alusão à música “Apesar de você” do Chico Buarque.

[vii] Vale a pena escutar e meditar a canção: Mais uma vez, do Renato Russo, com a Legião Urbana.

[viii] Refrão meditativo de Taize: Deus é amor, arrisquemos viver por amor. Deus é amor, Ele afasta o medo!

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